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Sem marcos nos lugares por onde passou,
Trenzinho da Cantareira vive na memória da ZN
 Ana Carla Pereira
 Estação AreialApós parada na Estação Areial, onde hoje está a estação
Carandiru do Metrô, a estrada de ferro do Trenzinho da
Cantareira se dividia em dois ramais: Jaçanã/Guarulhos
e Serra da Cantareira
O Tramway da Cantareira, mais conhecido como Trenzinho da Cantareira, é uma das mais belas e marcantes lembranças do passado da Zona Norte, imortalizada na canção Trem das Onze, de Adoniran Barbosa.

Através dos trilhos da antiga estrada de ferro, o desenvolvimento começou a chegar à até então isolada Zona Norte. Mas, apesar de representar parte importante da história da cidade, pouco restou de sua estrutura e de seu antigo trajeto. Hoje, sua lembrança está principalmente em relatos de moradores mais antigos, além de publicações e fotos da época. 

Por muito tempo, o Tramway da Cantareira, mais conhecido como Trenzinho da Cantareira, foi a única opção para se chegar da zona norte ao centro da cidade. Para se avançar do centro à zona sul, era preciso pegar um bonde na Avenida Tiradentes e no Largo São Bento.

“O trem foi um marco na história da Zona Norte”, avalia Silvio Bittencourt, fundador e diretor do Museu Memória do Jaçanã, que tem muitas histórias para contar sobre o tempo em que a velha Maria Fumaça cruzava a região. “O trem trouxe desenvolvimento e novos moradores, que construíram os bairros. Antes dele, quem tinha uma carroça era rei, porque não havia outro meio de transporte na região.”

Rua Adolfo SamuelDo Mandaqui, o trem seguia para a
Estação Invernada, na Rua Adolfo Samuel.
No passado, a região era dominada por sítios e chácaras
áreas de muito verdeApesar de hoje haver grande número
de residências na região, nela ainda há
áreas de muito verde

Quem pegava o trem com frequência era facilmente reconhecido, já que ele soltava muitas fagulhas que provocavam pequenos furos nas roupas dos passageiros. “Minhas roupas viviam furadas. Não tinha jeito. Quando eu caminhava até o trabalho muitos me falavam: lá vai ‘o Cantareira’. Era um tipo de marca e às vezes eu ficava bravo com isso.” Ele conta que os passageiros também gostavam de brincar com as donas de casa ao longo do caminho, avisando para tirarem as roupas do varal para que não acabassem queimadas.

Por outro lado, em seu trajeto, os passageiros tinham alguns privilégios, como observar pessoas pescando no então limpo Rio Tietê, por onde passavam barcos e nadadores que se exibiam saltando da antiga ponte de madeira na Avenida Cruzeiro do Sul.

“O rio era tão limpo, que havia peixes e muitas crianças brincando nele”, conta Bittencourt. “A garotada adorava ficar pendurada embaixo dos trilhos, que ficavam acima da água.”

As brincadeiras eram muitas. “Uma vez fomos malhar o Judas e o colocamos na linha do trem. Nos divertimos com o susto que o maquinista levou”, relembra. “Também tínhamos mania de colocar pregos na linha para o trem amassar. Deles fazíamos faquinhas.”

Silvio Bittencourt também lembra com alegria dos momentos de descontração no caminho para piqueniques no Lago dos Patos, em Vila Galvão, onde havia aluguel de cavalos e barcos. Também havia um animado salão de baile, em que os visitantes se divertiam ao som de ritmos variados, como rumba e foxtrot. “Cada pessoa levava alguma coisa para comer. Já íamos comendo no trem. Sempre tinha um conjunto de música tocando samba para animar”, diz. “Era tudo muito simples, mas era uma grande festa que já começava no trem”.

Bittencourt conta que alguns acidentes também ficaram marcados em sua memória. “Perdi alguns amigos neles. A Ponte da Vila Nilo era muito estreita e perigosa”, diz. Mas ele garante que as boas lembranças são maiores. “Não havia maldade naquela época. Sei de muita história bonita, como a de casais que se conheceram e namoraram no trem.”

Estrada de Ferro Cantareira

Parada Inglesa















A estação Parada Inglesa recebeu esse nome em
homenagem ao inglês William Harding, proprietário de
grande extensão de terras na região.
A estrada de ferro do Tramway da Cantareira ou Estrada de Ferro Cantareira foi construída em 1893 para transportar materiais de construção para uma adutora que traria água do reservatório local para os bairros próximos. Por ser uma linha urbana, dois anos depois, passou a ser utilizada por passageiros a trabalho ou em viagens de lazer para a região do Horto Florestal. Aos finais de semana e feriados, muitas famílias e grupos de amigos pegavam o trem para fazer piqueniques no parque. 

A estação inicial se localizava no Parque D. Pedro II, perto da Rua do Gasômetro, no sopé da Ladeira General Carneiro. Quando o Mercado Municipal foi construído, em 1933, a estação foi transferida para a Rua João Teodoro, esquina com a Avenida do Estado, perto do atual prédio do Liceu de Artes e
ruas Tramway e Inglesa













A.antiga Parada Inglesa ficava entre as ruas
Tramway
e Inglesa, em uma área residencial
Ofícios. Seu nome foi mudado para Estação Tamanduateí. De lá, o trem partia para a Zona Norte pela pista esquerda da Avenida Cruzeiro do Sul, que possuía uma única pista com duas mãos.

O trem fazia parada na Ponte Pequena, depois na estação Areial, onde hoje está a estação Carandiru do Metrô. Na bifurcação entre a Avenida Cruzeiro do Sul e a Avenida Gal. Ataliba Leonel, a estrada de ferro se dividia em dois ramais: Jaçanã/Guarulhos e Serra da Cantareira.

No Jaçanã/Guarulhos, a composição seguia para a Estação Pauliceia, que ficava na atual Avenida Luís Dumont Villares. De lá, seguia para a Rua do Tramway, na Parada Inglesa, que recebeu esse nome quando o bairro ainda era chamado de Vila Harding, em homenagem ao inglês William Harding, proprietário de grande área na região. Aos fundos da estação, ficava o Grupo Escolar Frei Antônio de Santana Galvão. Em seguida, passava atrás da EEPG Silva Jardim, cruzava a Avenida Tucuruvi e parava na atual Rua Paulo de Faria, na Estação Tucuruvi, que era bastante movimentada. Perto dela havia um famoso salão de bailes, onde os jovens da região costumavam se reunir.

Deste ponto, o Trenzinho da Cantareira ia pela Avenida Benjamin Pereira, passava pela Estação Vila Mazzei e só então seguia para a Estação Jaçanã, localizada junto à Praça Comendador Alberto de Souza, próximo ao antigo Asilo dos Inválidos, hoje chamado de Hospital Geriátrico e de Convalescentes D. Pedro II.

De lá, partia para Guarulhos, onde fazia quatro paradas: Vila Galvão, Gopoúva, Vila Augusta e Guarulhos. Em 1947, o ramal foi estendido até o Aeroporto Militar de Cumbica.

O outro ramal do Tramway da Cantareira que saía da Estação Tamanduateí seguia até a Serra da Cantareira em um percurso mais longo, com maior número de paradas.

Da estação inicial seguia para a Estação Ponte Pequena, passava pela Areial e seguia para a Estação Santana, que ficava no cruzamento entre as ruas Voluntários da Pátria e Alfredo Pujol. Depois, rumava à Parada do Quartel, atual Rua Cônego Manuel Vaz. O Quartel em questão era o 4º Batalhão de Caçadores, localizado no antigo casarão onde hoje funciona o Centro de Preparação de Oficiais da Reseva, o CPOR. De lá, seguia para a Estação Santa Terezinha, na Rua Domingos da Costa Mata. A próxima parada era na Estação Mandaqui, localizada entre as ruas Voluntários da Pátria e Valério Giulli. De lá, saía o chamado Ramal dos Menezes, que era de uso particular, em direção ao Lauzane. A atual Rua Ramal dos Menezes é parte de seu antigo trajeto.

Do Mandaqui, seguia para a Estação Invernada, na Rua Adolfo Samuel. No passado, a região era dominada por sítios e chácaras. Apesar de hoje haver grande número de residências na região, nela ainda há áreas de muito verde.

De lá, o Trenzinho da Cantareira seguia para a Parada Pinto, entre as avenidas Parada Pinto e Santa Inês, já na região do Horto Florestal. Dali partia para a Estação Parque Modelo e em seguida pelas estações Pedra Branca e Estação Horto, localizada na entrada do parque, de onde rumava para a Parada 7, que ficava entre a Rua do Horto e a Avenida Luiz Carlos Gentile de Laet. A parada final deste ramal era na Estação Tremembé.

Adoniran Barbosa













A.Estação Jaçanã foi imortalizada
na canção “Trem das Onze”,
de Adoniran Barbosa
Aos domingos e feriados, de três em três horas, o trenzinho ainda partia do Tremembé para o centro do Parque da Cantareira, onde eram realizados muitos piqueniques. Junto aos trilhos era comum se avistar vários animais como onças, veados e cachorros do mato. Além dos bichos, os guardas florestais precisavam redobrar a atenção, combatendo princípios de incêndios provocados pelas fagulhas de carvão liberadas pelo trem.

O Tramway da Cantareira deixou as ruas da região para entrar para a história no dia 31 de maio de 1965, às 20h20, quando realizou sua última viagem. Ele partiu para abrir passagem ao progresso, com a construção da Ponte Cruzeiro do Sul e da primeira linha do Metrô em São Paulo, que mais tarde ligaria a zona norte à zona sul da cidade.

Em homenagem ao trenzinho, Silvio Bittencourt compôs uma canção com Maurílio Silva, na mesma linha melódica de Trem das Onze de Adoniran Barbosa. Em seus versos, diz: “Se eu pudesse alegrar meu coração e ir de trem pro Jaçanã... é impossível meus senhores, agora com o progresso poderemos ir de metrô... vai de uma hora à meia-noite. O trem das onze virou marco na história, o Jaçanã saúda Adoniran Barbosa. O hino do bairro guardamos na memória e com saudades cantamos agora...”

Memória

Da antiga estrada de ferro, pouco sobrou. Segundo Bittencourt, as únicas estações preservadas foram a do Parque da Cantareira e a de Guarulhos. No Largo do Tremembé, ainda há o antigo casarão onde moravam os maquinistas. Próximo à sede do CPOR, na Cônego Manuel Vaz, ainda há parte de um muro da Parada do Quartel. Em Vila Augusta, ainda existe parte do imóvel onde ficava a estação. Porém no Jaçanã, não restou nada da estação. Há agora apenas algumas casas antigas onde no passado moravam funcionários do Tramway da Cantareira.

“Meu sonho é conseguir colocar um busto do Adoniran Barbosa na Praça Comendador Alberto de Souza e uma réplica da antiga estação Jaçanã, que ficava no local”, afirma Bittencourt.

No acervo do Museu Memória do Jaçanã (Rua São Luiz Gonzaga, 156. Tel.: 2241-4286), que completará 30 anos em dezembro, há fotos, livros e objetos que lembram a história do Trenzinho da Cantareira. O local fica aberto ao público de terça a sexta-feira, das 14 às 17 horas e aos sábados, das 9 às 13 horas.

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